coisas do género

“Um homossexual não será a pessoa indicada para vigilante noturno num internato de jovens rapazes; uma recém-casada não pode ser contratada como modelo.” *

* in Direito do Trabalho I, de Menezes Cordeiro, publicado em outubro de 2018. A frase completa (na página 566) é:

“A vida íntima de uma pessoa pode, em qualquer momento, ser conhecida; e sendo-o, pode prejudicar a imagem de uma empresa. Assim, como exemplos: para quem pretenda lidar com valores, melhor será que não tenha cadastro e que não esteja insolvente; um homossexual não será a pessoa indicada para vigilante noturno num internato de jovens rapazes; uma recém-casada não pode ser contratada como modelo; um alcoólico fica mal num bar, o mesmo sucedendo com um tuberculoso numa pastelaria ou com um esquizofrénico num infantário. Não vale a pena fazer apelos ao politicamente correto, nem crucificar os estudiosos que se limitem a relatar o dia-a-dia das sociedades: o Direito vive com factos e não com ideologias.”
a) E, por maioria de razão, um heterossexual nunca deve ser vigilante noturno num internato de jovens raparigas. É isso, não é?
b) Uma mulher recém-divorciada, ainda vá, pode ser modelo – mas também já não é virgem e núbil, talvez não sirva. Outra hipótese é se for casada há mais tempo, enfim, mas assim logo, logo, é que não. Agora a mostrar o corpo a outros homens para além do marido, onde é que já se viu? Galdéria. Pior: se for casada há pouco tempo, ainda pode engravidar pelo caminho. Bom, se for casada com uma mulher, não; não me tinha lembrado dessa. Ai, espera, afinal casada com uma mulher também pode engravidar. Bom, mas vamos lá ver, essa já é galdéria à partida, não é modelo para ninguém. Olhem, mas tudo isto são só factos, atenção, não há aqui ideologia.
c) Uma entidade empregadora deve sempre querer saber toda a vida privada de qualquer pessoa que contrate ou pense contratar. Deve perguntá-la em entrevistas e tentar esmiuçá-la bem esmiuçada. Os detalhes são importantes, cada um deles. E pensem como as entrevistas de emprego se tornam muito mais divertidas para quem as conduz.
d) E um professor de Direito – talvez um dos mais influentes, senão o mais influente dos professores de Direito – que continua no tempo do Antigo Regime: poderá ele ensinar juízes do Tribunal da Relação do Porto ou de outro qualquer?
e) O Direito ainda vive de ideologias de pessoas como esta, que optam por desconsiderar os artigos do Código do Trabalho relativos à não-discriminação e nem percebem o que são categorias sociais. Eis o facto.

 
 
 
 

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