coisas do género

Linguagem inclusiva: o X não marca o lugar.

Falar de linguagem inclusiva tipicamente gera resistência. Por um lado, há o conforto da aprendizagem passada e o domínio já adquirido de uma língua que está cheia de género; por outro lado, há a dúvida sobre o impacto dessa linguagem nos atos.

Vamos começar pela dúvida: altera alguma coisa?

O ‘masculino neutro’ nunca é neutro, condiciona o pensamento: dizer ‘Qual vai ser o próximo Presidente do Tribunal Constitucional?’ faz-nos pensar em homens. Claro que a realidade já está colonizada o suficiente por homens para que mais facilmente o masculino ‘neutro’ seja o gatilho dessa imagem (que já lá está).
Em alternativa, a pergunta ‘Qual será a próxima pessoa a presidir ao Tribunal Constitucional?’ permite que algumas cabeças pensem em mulheres, mas apenas as cabeças que estiverem menos colonizadas com a ideia de que o mundo (e sobretudo o mundo do poder) é e deve ser feito de homens.
Por sua vez, a pergunta ‘Qual vai ser a próxima Presidente ou o próximo Presidente do Tribunal Constitucional?’ incita a pensar em mulheres e em homens, até para quem não pensa automaticamente em mulheres.

O impacto das três formulações é bem diferente: a primeira reforça o passado, cheio de discriminação; a segunda reforça o presente, ainda com um grande lastro de discriminação que vem desse passado; já a terceira permite tentar construir um futuro melhor.

Acreditamos por isso que esse impacto existe e é significativo. Quanto à questão do conforto da aprendizagem passada e da dificuldade de adaptação, não há muito a dizer: se queremos progresso, ultrapassamos a preguiça.

Mas há ainda uma terceira questão que aqui é relevante: saber o que significa linguagem inclusiva.

Para além da versão publicada pela CIG, há várias formulações alternativas que têm sido propostas. Recentemente tem ganho popularidade uma versão ‘neutra’ que usa o x para construir plurais: a palavra ‘todxs’ pretende abarcar não só mulheres e homens mas também pessoas que não se identifiquem como mulheres e homens, porque a fluidez em termos de identidade de género também existe e pode existir. O objetivo será certamente bom, porque pretende a inclusão (e o questionamento do género como sistema binário). Resta saber se é também a estratégia adequada.

E, para isso, precisamos de começar com o diagnóstico.

Desde logo, começar por reconhecer que todas as questões relacionadas com a discriminação com base na orientação sexual e com base na identidade ou expressão de género assentam no mesmo sistema de género que impõe a desigualdade entre mulheres e homens. Basta pensar em como as objeções ao casamento ou à parentalidade por casais do mesmo sexo assentam na expectativa de papéis diferenciados para mulheres e homens nesses âmbitos. E, naturalmente, o dissipar de diferenças de poder entre mulheres e homens elimina resistências em relação a quem queira identificar-se como estando para além destas duas categorias.
Este reconhecimento será, julgamos, um passo relativamente fácil.

Mas é a segunda parte do diagnóstico que poderá causar mais divergências: identificar o grau da discriminação de mulheres face a homens no mundo de hoje. Entre princesas e campeões e livros cor-de-rosa e azuis, o condicionamento continua em força. Na família, os papéis continuam bem diferenciados no exercício da parentalidade. No espaço público, a apropriação dos corpos de mulheres continua a ser a regra. Na política, no espaço das decisões, as mulheres continuam à procura de uma massa crítica que lhes permita ter voz. Ou seja, a discriminação é estrutural – e assenta no pensamento, nas imagens, nas expectativas. Compreender o muito que há a fazer para garantir a igualdade entre mulheres e homens é compreender que estamos no princípio de um processo que vai ser longo e exigente. Os progressos que já aconteceram devem ser celebrados mas não devem iludir: o problema é agora.

Daí o ser, a nosso ver, fundamental usar uma linguagem que remeta para a existência de mulheres, que as assinale no espaço público também pela via da linguagem, para que passem a existir em cabeças que foram sempre ensinadas a remeter as mulheres para o espaço privado. Dizer ‘todas e todos’ faz isso. Escrever ‘tod@s’ (desde que se leia ‘todas e todos’, o que a arroba permite e sugere) também. Já escrever ‘todxs’ (que, na oralidade, se reduz invariavelmente a ‘todos’), ainda que aparentemente mais inclusivo, elimina afinal as mulheres – do pensamento, uma vez mais.

No máximo, a alternativa inclusiva seria ‘todas e todxs’ na escrita (porque na oralidade continuaria a ser ‘todas e todos’), para marcar a existência de mulheres e permitir que ninguém se sinta fora da expressão. Permitir portanto o neutro para abarcar homens, mas não deixar que o neutro apague as mulheres.
O género está lá, na linguagem; o género está cá, no sistema de poder. As realidades das mulheres estão ainda bem longe de serem compreendidas – e continuam a ser silenciadas, nomeadamente pela linguagem. Apagar hoje as mulheres da linguagem é apenas reforçar o sistema de poder. Pelo contrário, marcar a existência de mulheres é contribuir para alterar o sistema de poder até ao dia em que o uso de qualquer termo neutro seja de facto ouvido e interpretado como neutro em termos de género.
Hoje, o x ainda não marca o lugar.