coisas do género

“Nanette” e a revolução do humor

Há aquelas obras que definem um momento. “Nanette”, da australiana Hannah Gadsby, define o agora. Na esteira do #metoo e da discussão sobre o politicamente correto e sobre os limites do humor, Hannah Gadsby apresenta a sua história e, ao fazê-lo, revoluciona a comédia stand-up.

Em Portugal, muita da comédia é feita por homens brancos heterossexuais (HBH), o grande alvo do humor de Hannah Gadsby, lésbica e “de-género-não-normal”. Em “Nanette” (disponível na Netflix), Gadsby transforma os HBH de sujeitos em objetos de humor, denunciando os duplos padrões que continuam a afetar todos os campos da vida em sociedade, incluindo o próprio humor.
Que a “liberdade de expressão” é apanágio dos HBH, por oposição ao “descontrolo” de mulheres como Hannah.
Que a “histeria” é apontada a mulheres e a pessoas que resistem à normatividade de género, quando deveria ser evidente a histeria de quem defende a bem antiga ideologia de género na base de tantas histórias de violência que estão sempre por ouvir (e de tantas das histórias que Gadsby conta).

Que as subcategorias humanas criadas pelos guardiães do sistema não foram pensadas para os HBH e que os HBH não conseguem lidar, em pleno #metoo, com a sua súbita remissão para a subcategoria de HBH.

O #metoo marca o zeitgeist e Gadsby sabe – e afirma – que artistas não constroem o zeitgeist, refletem-no. Sendo mulher, sendo lésbica, sendo margem, não parte do pressuposto de que controla o centro e de que o define. É capaz de fazer a crítica que o centro não consegue. É por isso que a perspetiva de Hannah Gadsby é imprescindível: porque não valida, questiona; não aceita, transforma; não cala, acorda.

É isso que lhe permite questionar, por exemplo, a romantização da doença mental, também ela sempre genderizada. É isso que lhe permite arrasar a História da Arte que aprendeu – e a arte que fez história. Porque é sempre feita por ou pelo menos para HBH, porque a arte sempre dependeu do poder e já sabemos de quem era o poder. E explica: as perspetivas no cubismo (um dos seus alvos preferenciais) podem pretender ser múltiplas e simultâneas, mas são sempre de um HBH. Estamos longe de perceber, como diria a conterrânea Cate Blanchett, que o mundo é redondo.

E os homens mais alvo de crítica no #metoo (e Trump está incluído) são apenas exemplos, explica Hannah – porque a tensão que subsiste tem a ver com o sistema que os produziu. A tensão que sentimos não pode e não deve desaparecer, porque a história de Hannah é a nossa história e a nossa história é a história de Hannah.

Daí também o questionamento da humorista Gadsby quanto ao próprio papel do humor. Não só do humor autodepreciativo (que, explica, é a única forma de se permitir que as margens tenham voz no campo do humor precisamente por ser uma admissão da condição de margem), mas também do humor enquanto forma de arte. O humor que não nos deixa ouvir as histórias – e as histórias de diferentes vozes – até ao fim é apenas uma fuga ao confronto com as nossas histórias, teme Hannah Gadsby. “Nanette” é uma revolução no humor, porque nos faz rir mas também chorar – e dá-nos uma nova interpretação para a expressão “chorar de rir”.

Por cá, estamos longe do zeitgeist. O que vamos tendo são ainda muitos espetáculos de stand-up (quase sempre de HBH) e humoristas a reforçar o que nos divide, para tranquilizar as tensões – nomeadamente de género e sexualidade – que sabemos latentes. “Nanette” devia ser de visionamento obrigatório, sobretudo para eles.

Sim, Gadsby está – e deve estar – zangada mas também sabe que não é pela ira que lá vamos, embora precisemos de expressá-la. E consegue estabelecer a ligação ao enorme público da Ópera de Sydney (e a nós, que a vemos num écran) a partir da sua verdade, da sua história, e da tensão que não se resolve ainda. A capacidade de olharmos retrospetivamente é um dom, explica. É à luz de hoje que podemos – e temos que – revisitar a nossa história e torná-la hoje mais nossa, do nós que entretanto já fomos sabendo construir.

A comédia é a tragédia com tempo, dizia outro homem. O tempo não passou. Este é o tempo de “Nanette”.