coisas do género

Princípios e princesices

Este filme é um grave atentado à igualdade de género? Grave, grave não chega a ser. Mas foi muito revelador, ao pôr a nu o tanto que ainda está por fazer em Portugal, poucos dias depois da publicação da nova Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação 2018-2030.

No dia 21 de maio de 2018 é publicada em Diário da República a Resolução do Conselho de Ministros n.º 61/2018, com a Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação 2018-2030. Com este novo e importante instrumento o Governo assume o desígnio ambicioso de dar «início a um novo ciclo de planeamento, assente numa abordagem mais estratégica e ampla, e no compromisso coletivo de todos os setores na definição das medidas a adotar e das ações a implementar».

A «eliminação dos estereótipos é assumida como preocupação central», porque «os estereótipos de género estão na origem das discriminações em razão do sexo diretas e indiretas que impedem a igualdade substantiva entre mulheres e homens, reforçando e perpetuando modelos de discriminação históricos e estruturais». Pois é, mas ainda a tinta não tinha secado e já nos apercebíamos do quanto ainda está por fazer, quando o mesmo Estado que tão bem reproduz o discurso da igualdade de género nos apresenta, por via da Direção-Geral da Saúde, uma campanha antitabágica que representa mais ou menos a negação de tudo isto, numa curta-metragem especificamente direcionada para raparigas e mulheres (nada de mal nisso) mas que assenta nos mesmos estereótipos de género que já não se percebe se o Governo quer combater, se propagar, ou se os combate, sim, exceto quando lhe dão jeito.

O filme apresenta-nos uma mulher que aparenta estar em fase terminal de um cancro do pulmão. Centra-se no momento em que esta, que é fumadora, se apercebe do quanto os seus gestos representaram um mau exemplo para a filha, que os reproduz, fingindo-se também fumadora. A filha, que terá cerca de oito anos, aparece-nos sempre de tiara na cabeça e numa sucessão de ambientes festivos onde impera o cor-de-rosa. Fulminada pela culpa, a mulher-mãe dirige-se à filha, pedindo-lhe que prometa que será sempre a sua princesa. E avisa-a: as princesas não fumam. Também anda por lá um pai, personagem secundária cujo papel parece ser o de sublinhar o seu sentimento de culpa. E por palavras, gestos e olhares, opinar, claro. Sempre opinar.

A análise da curta-metragem é difícil, porque pressupõe a dura tarefa de separar os vários motivos pelos quais esta nos repugna: sim, o filme é pastoso e de gosto mais do que duvidoso, mas não é o que agora importa. Sim, o filme tão-pouco será especialmente eficaz, não só pelos seus incompreensíveis dezasseis minutos, mas sobretudo por falhar redondamente o alvo ao associar o fumo à rebeldia, tocando numa tecla que não ressoará na grande maioria das adolescentes que buscam no tabaco tudo menos a imagética associada às princesas de uma infância que já se lhes afigura longínqua, e da qual anseiam distanciar-se o mais possível. Mas também não é esse o ponto.

Se é verdade que há cada vez mais mulheres que fumam, sendo preocupante o aumento do consumo de tabaco por adolescentes e jovens mulheres, também é verdade que em números absolutos continuam a ser os homens quem mais fuma em Portugal. E porque é que é assim? Tempos houve em que as mulheres não fumavam. Agora muitas fumam. Porquê? Antes de mais porque podem. Porque se emanciparam, libertando-se de muito do que as oprimia e lhes era imposto pela sociedade, impedindo-as de fumar, de beber, e de tantas outras atividades tidas por exclusivamente masculinas, como simplesmente ir ao café. A vida no feminino resumia-se à reprodução e ao cuidar: de quem se gera, de quem nos gera, enfim, de toda a gente. Não havia vagar para mais. O ócio era masculino. As regras multiplicavam-se: uma senhora não isto, uma senhora não aquilo… Muitas ainda hoje nos tocam, que isto da emancipação tem muito que se lhe diga e não acontece de um dia para o outro. Uma das autoras deste texto refere-se-lhes aqui, num registo mais leve.

Chegamos agora à já célebre afirmação de que «uma princesa não fuma» (uma variação do «uma senhora não»/ «uma menina não»). Se é preocupante cada vez mais adolescentes do sexo feminino fumarem e se torna importante lançar uma campanha antitabágica que lhes seja dirigida? Não é isso que aqui pomos em causa. Agora, tendo em vista todo um passado de opressão, um passado em que as mulheres não fumavam porque não podiam, este slogan representa como que um apelo a um regresso ao passado: deixem lá a liberdade, que obviamente correu mal, porque fez-vos fumar. Deixem-se disso. E porquê? Porque fumar faz mal? Não. Porque parece mal. As meninas querem-se belas e passivas, boazinhas e bem-comportadas, como as princesas dos contos de fadas. Fumar é feio, estraga a fotografia. E depois não arranjam príncipe, claro. E isto num tempo em que já nem as princesas correspondem a este tão estafado estereótipo – nem as verdadeiras, nem as imaginárias – vejam-se os exemplos das mais recentes princesas da Disney (de que é paradigmática a maravilhosa – e poderosa – princesa Elsa do Frozen).

Se a mensagem da criança assenta no velho estereótipo da princesa, linda e passiva, a mensagem da mulher que fuma não foge a um outro estereótipo, igualmente velho e estafado: o da mulher-mãe que fumou e porque o fez vai morrer, abandonando a família e ainda por cima dando um tão mau exemplo à sua filha. É o terrível fantasma da culpa. Dizem-nos que também podiam ter feito um filme com um pai e um filho. Afinal os homens continuam a fumar mais do que as mulheres. Poder, podiam. Mas não é um acaso não o terem feito, que a imaginação não chega para tanto e os estereótipos aí estão tão à mão de semear para isso mesmo, e dão tanto jeito…

Este filme é um grave atentado à igualdade de género? Grave, grave não chega a ser. Mas foi muito revelador, ao pôr a nu o tanto que ainda está por fazer em Portugal, poucos dias depois da publicação na nova Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação 2018-2030. 2018-2030? Se calhar é mais 2030, porque 2018 nem por isso…

A luta contra a assimilação das raparigas a princesas já leva várias décadas. Para se ter uma pequena ideia da sua extensão bastará ir ao Google e escrever, por exemplo, qualquer coisa como «Don’t call me a princess T-shirt» (a oferta é avassaladora). E no entanto entre nós tanta gente caiu das nuvens: «O quê? Desde quando é errado chamar às crianças princesas e campeões?». Tanta gente que nada vê de errado em passar às raparigas a mensagem de que devem ser lindas e passivas, sorrindo bastante e vestindo belos vestidos, com muito tule e purpurina, e aos rapazes a de que devem esforçar-se por ir tão longe quanto as suas capacidades o permitam para atingirem a excelência.

E quanta violência, quanta indignação dirigida à indignação de quem fez ouvir a sua voz de desagrado. Tantos: «Eh pá, não exagerem, dediquem-se antes a combater a violência doméstica e a desigualdade salarial, que são coisas sérias!». Tanta incompreensão: nesta luta, que é só uma, a violência de género combate-se atacando-lhe a causa e não apenas os efeitos. E a causa é só uma: a misoginia impregnada em nós, sociedade.

Importa pois chamar a atenção de todo e qualquer organismo público para os materiais que apoia e divulga – não basta focar um tema importante, é fundamental observar como o faz e se ao fazê-lo não atropela outras prioridades do Estado.

E sim, o apontar o dedo ao filme também faz parte dessa luta. Porque é nos pequenos gestos que a tantos passam despercebidos que a misoginia se vai perpetuando.